quarta-feira, 31 de março de 2010

296 - ECOS DO PASSADO
Autor: Carlos Henrique Rangel

Por que me detesta
Criatura vã?
Que mal te fiz
Para irromper
Minhas entranhas?
Destruir minha
Estrutura?
Sou filho dos seus
Como você.
Útil fui.
Útil sou.
Mas não me
Quer aqui
Nesse novo mundo
Que não acho novo...

Eu já não sou
O que fui
E como sou
Não te sirvo
Mais.
Mas sei tanto...
Posso contar de você
E dos seus.
E te faço lembrar
O que esqueceu.
Então,
Não me odeie
Ou me despreze.
Sou testemunha
Do começo.
Não apresse
O seu fim.
    294 - MINHAS MÃOS
Autor: Carlos Henrique Rangel

Me diga então...
Não sou adivinho.
Eu também Caminho
E recolho as flores que estão.

Você em minhas mãos...

Carrego o mundo
Em manuscritos.
Coração perdido.
Não sei de amores
Mas você está
Em minhas mãos...

E te levo com tudo...
E não sei o que quer.
Não sou adivinho.
Também caminho.
Recolho a flores...

Você em minhas mãos.

295 - CASTELOS
Autor: Carlos Henrique Rangel

Nada mais frágil do que castelos de areia
Nada mais eterno que ondas em praias.
Sempre estarão lá as areias
E as ondas do mar.
Os castelos,
Esses vem e vão...
Caprichos de homens
Caprichos do mar...
Como as vidas dos fazedores,
São lampejos
Um piscar...

Mas que lampejo.
Mas que piscar...

segunda-feira, 29 de março de 2010

293 - PERFUME
Autor: Carlos Henrique Rangel

Em minhas mãos
O seu perfume...
Está em minhas mãos
O seu cheiro
De mulher.

E te transmito
Aos outros
Com delicadeza.
Sou mensageiro
De você.

Espalho-te
Aos quatro cantos...
O mundo vira
Você.

Pelas minhas mãos
Repasso-te
E o mundo
Fica melhor.
Mais perfumado...
Mais você.

Doce perfume
É você.
Flor de você.

domingo, 28 de março de 2010

289 - FLOR NO CAMINHO
Autor: Carlos Henrique Rangel

Uma flor no caminho
Me lembrou você.
Branca margarida
E eu não recolhi.
Melhor assim...
Como você,
Ficou no caminho
Distante de mim.
Uma simples flor
Simples você.
Você não me quis
A flor... Eu não quis.



Casarão do Inconfidente Abreu Vieira
290 - SOMBRAS
Autor: Carlos Henrique Rangel

Sombras da noite.
Os que foram
Ainda estão.
Choram o passado
No ranger
Das portas.
Ninguém os vê
E estão lá
Ensaiando a vida
Que não é mais.
Há senhores
E servos.
Cúmplices do tempo.
Solidários
Do que foi...
Somos intrusos,
Invasores
De cotidianos
Antigos.
O casarão
Não lhes pertence
E a nós
Muito menos.
Não sabemos
O suor das paredes...
As lágrimas nas janelas...
São deles os sangues
Na poeira.
As dores no assoalho...
Nós...
Não apreendemos
Nada.
Não aprendemos
Nada.
As sombras
Da noite
Continuam as rotinas
Do tempo
Enquanto houver
Vestígios do tempo...
Enquanto houver
Tempo.

291 - PRAIA DO MUNDO
Autor: Carlos Henrique Rangel

A praia do meu mundo
Fica Ali na esquina
Onde suo minhas mágoas
Em líquidos gelados
Pensando em você.
Atravesso mundos e fundos
Para morrer na praia
Entre iguais desajeitados.
Ex-amados, ex-felizes...
Atuais desgarrados,
Solitários, cansados...
A praia do mundo
Tem areias sujas
E águas mal cheirosas.
E você não está lá...

(Somente em pensamento...)
Eu mergulho nesta solidão
De momento
E me afogo
Na sarjeta movediça.
No outro lado do mundo
A esperança me espera...

sábado, 27 de março de 2010

288 - ESSAS PALAVRAS
Autor: Carlos Henrique Rangel

Essas palavras
Que saltam do peito,
Dizem o possível
E o impossível.
O que quero
E o que gostaria.
Essas palavras
Ainda são palavras
E limitam o que quero
E o que poderia...
Essas palavras...
Há mais por trás.
São suadas,
Cheiram a almas
E lágrimas...
Ainda são palavras.
Calejadas...

Palavras...




287 - FLUIR
Deixe que a água corra
Ela sabe o caminho
O doce caminho...
Amar é um chocolate
E desfruto cada pedacinho.
Deixar fluir...

O amor também sabe
seu caminho.


285 - Alguns Porquês
Autor: Carlos Henrique Rangel

Se não me quer
Por que me olha?
Se me olha
Por que não me quer?

Eu te olho
Eu te quero.
Se não olhasse
Não te queria.

Por que me observa
Se me nega?
Se me nega
Por que me observa?

Eu te observo
Eu não te nego.
Se não te observo
Te nego...

Por que não me quer
Se eu te olho?
Por que me nega
Se te observo?

Você me olha
Você me observa.
Me queira
Não me negue.
Serei seu
Serás minha.
Serás minha
Serei seu...

Serás minha...

286 – OLHOS ABERTOS
Autor: Carlos Henrique Rangel

De olhos
Bem abertos
Eu vi os seus.
E eram verdes
Como o espelho
Do rio.
Esmeraldas vivas
Que me faziam
Vivo.
Quanta juventude
Vi
No brilho que vi.
E você era tudo
E eu...
Um nada carente.
De olhos
Bem abertos
Te vi desfilar
E lamentei
Ser o que sou.
Essas pedras verdes
Não me verão
E eu,
Não pisarei o rio...
Somente em sonhos...

Sempre os olhos...
Fascínio...
Janelas da alma
Que mostram o que não se pode ver.
Os olhos falam das verdades mais íntimas.
Aquelas que tememos entender.

quinta-feira, 25 de março de 2010

283 - BANHISTAS
Autor Carlos Henrique Rangel

Quem são as meninas
Que se mostram
Livres na outra margem?
Não as vejo e as quero.
São deusas?
São ninfas?
São banhistas...
Eu que não as tenho nítidas
Não existo.
Elas ficam.

Eternas serão.

Eu não...

A água está fria.
Não estragarei
A composição...


284 - POETA TORTO
Autor: Carlos Henrique Rangel

Serei o poeta
De um mundo sem rumo.
Que diz verdades
Desencontradas
E sonha com fadas aladas.
Serei o poeta
Das coisas comuns.
Que parecem incomuns
Para os que sabem.
Serei o verso
Desorientado
Que fala de chuvas
Esquinas e formigas.
Que chama estrelas
De amigas...
Serei o amante
Solitário que sorrir
Para a musa
Inspirado em dor e amor.
Eu sou o anjo torto
De um mundo torto.
Cantor do visto
E do relido.
Que ama estar
Aqui.
Serei o poeta revisto.
Revisor de mitos
Sonhando melhor
Pensando no Paraíso.
Não me veja mal.
Me veja bem.
Sou poeta,
E os poetas
Vêm além...
Sou poeta
De um mundo perdido.
Quase sábio.
Quase amigo...
Digo verdades
Desencontradas
E sonho
Com fadas aladas...

domingo, 21 de março de 2010

Imagem de Nossa Senhora do Rosário furtada do distrito de Brejo do Amparo/Januária em 1987
IMAGENS
Autor: Carlos Henrique Rangel


O homem depositou o pacote sobre a mesa e limpou o suor da testa.


-Está aí. Não foi fácil... Tinha alarme... – Disse homem olhando para o senhor de cabelos brancos que segurava um copo de bebida.


-O que estou te pagando cobre todo o risco... – Disse o homem de cabelos brancos.


-Claro senhor Jorge, eu não estou reclamando. – Disse o homem suado.


-Tome o seu cheque e pode ir. – O homem suado limpou novamente a testa e partiu.


Jorge rasgou o embrulho e sorriu quando viu a bela imagem de Santo Antônio que havia adquirido. Deu uma volta ao redor da mesa admirando a peça e sorriu novamente.


-Mestre Piranga... Sim... Tenho certeza... Agora vou te apresentar a sua nova casa. – Disse pegando a imagem. Carregou-a por um corredor e parou na ultima porta a direita. Segurou a imagem entre o braço esquerdo e abriu o pesado cadeado. Era um quarto pequeno com apenas uma janela bem fechada.


Acendeu a luz e sorriu para as várias peças sobre uma grande mesa.
-Mais uma para a minha coleção...Santo Antônio apresento-lhe seus irmãos. – Disse ajeitando a imagem do santo entre uma Nossa Senhora do Rosário e um São José.


Correu os olhos novamente para o seu acervo e sorriu feliz. Apagou a luz e fechou a porta.


O ruído ele ouviu quando ainda colocava o cadeado sobre o trinco.
Eram vozes.
Parou de mexer na porta e esperou.
Colocou o ouvido na porta e esperou.
As vozes começaram tímidas.


-Mais um... Como vai Santo Antônio, seja bem vindo ao nosso humilde lar. – Disse a Nossa Senhora ajeitando a coroa.


-Obrigado Senhora, o prazer é todo meu... Mas... Onde estou? A ultima coisa de que me lembro foi de ter sido enfiado em um saco... – Disse o Santo olhando ao redor, custando a enxergar naquela escuridão.
-Isto aconteceu com todos nós... – Disse um São João Batista que estava mais no canto ao lado de uma Santa Efigênia.


-Fui roubado? – Perguntou o Santo assustado.


-Foi. Todos nós fomos. – Falou uma Nossa Senhora de Lourdes.


-Até hoje tenho pesadelos por causa daqueles brutos que me tiraram do altar... Olha, quebraram uma de minhas asas... – Falou um anjo mostrando a asa com um grande remendo.


-Traumatizado, coitado... Nem dorme direito. – Completou a Nossa Senhora do Rosário balançando a cabeça.


-Eu nunca pensei que isto iria acontecer comigo... Já haviam me falado destas coisas. Mas na minha igreja foi a primeira vez...


-Ai meu filho, na minha igreja aconteceu tantas vezes... Ai que saudades dos velhos tempos em que éramos tratadas com respeito... Tantos anos... Quase trezentos anos atrás. – Lamentou a Nossa Senhora do Rosário.


-A senhora esta muito bem... Não parece tão antiga... – Falou o Santo Antônio admirando a Imagem da Senhora.


-Ah meu filho, tenho alguns probleminhas, uma pequena rachadura, a pintura do meu manto está desgastada...


-Não se nota. – Disse o Santo.


-Sou uma boa peça... Acho que todas nos somos. – Completou a Senhora.


-Aleijadinho?


-Não... Jorge diz que sim. Mas fui feita pelos ajudantes dele... – Respondeu a Nossa Senhora do Rosário.


-A senhora faria o maior sucesso na minha igreja. A nossa “Nossa Senhora do Rosário” é pequena e singela – Elogiou o Santo Antônio.


-Ah meu filho, não quero “pegar” o lugar de ninguém...Queria voltar para a minha Igreja...


-Eu sou uma peça portuguesa. Vim diretamente do Porto... Chique né? – Falou uma Nossa Senhora da Conceição de mais de um metro.


-Muito... – Exclamou o Santo Antônio.


-Eu sou paulista mesmo... Taubaté. E você? – Perguntou o São José.
-Fui feito por um mestre que trabalhou muito na minha cidade... Mas não posso falar o nome dele... É segredo... – Explicou o Santo Novato.


-Conheci um Santo Antônio... Ficava no nicho esquerdo do meu altar... Pegou cupim... Uma tragédia... – Lamentou a Nossa Senhora da Conceição.


-Nossa! E o que aconteceu? – Perguntou o santo curioso.


-Levaram ele para um ateliê de restauração, voltou lindo.


-Que bom... Sei de um caso gravíssimo... Epidemia mesmo... Pegou em todo mundo. – Disse o São José pensativo.


-E aí?


-Ah, perdemos um São João Batista, uma Nossa Senhora do Rosário e uma Santa Rita...- Explicou o São José.


-Catástrofe! Isto acontece quando a comunidade não cuida direito da igreja...


-Somos muito bem cuidados aqui. Jorge nos limpa uma vez por semana... – Falou um Cristo que segurava uma grande cruz.


-Mas isto aqui não é uma igreja... É escuro e pequeno... – Disse o Santo novato.
-Ai que saudade da minha igreja... As orações, as velas iluminando...O povo e os pedidos do povo... – Lamentou a Senhora do Rosário balançando o terço.


-Não tem reza aqui? – Espantou o Santo recém-chegado.


-Não tem nada, só escuridão e a visita do Jorge de vez em quando.


-E ele reza?


-Não... Apenas fica admirando...Nada de preces... – Respondeu o São Joaquim que até então apenas ouvia.


-Mas que coisa egoísta... Na igreja somos adoradas por multidões... E as orações... Adorava ouvir os pedidos e tentar atendê-los...


-Aposto que eram sobre casamento... – Falou um Menino Jesus deitado em uma manjedoura.


-A maioria dos pedidos era sobre casamento. – Confirmou o Santo rindo.


-Ai, e as procissões... Adorava sair pelas ruas no andor. Adorada ver toda a população da cidade... Subindo ladeiras... Perdi a conta de quantas vezes sai pelas ruas... Nunca era igual. Ás vezes as novidades não eram boas. Sentia a falta de uma casa, percebia um prédio novo e feio ocupando o lugar de um sobrado lindo que existia perto da igreja... Uma mudança no ritual... Mudança para pior... – Lamentou a Nossa Senhora do Rosário ajeitando o manto.


-E os veículos... Quando vi o primeiro automóvel quase desci do andor e sai correndo. – Disse o São José alisando a barba.


-E os cantos... Na sua igreja tinha música? Na minha igreja cantava-se muito a luz de velas quando eu era uma imagem novinha. O órgão com aquele lindo som do Céu... Depois instalaram luz elétrica e a igreja ficou muito mais clara...- Falou um São Sebastião soltando um dos braços para evitar a cãibra.


-Adoro a Semana Santa e a decoração das ruas...Saia da minha Igreja e ia para a Igreja de Minha mãe... – Falou o Cristo pensativo.


-Ai meu Deus que saudades do Congado... – Lamentou novamente a Nossa Senhora do Rosário.


-Meu povo deve estar muito triste...- Falou o Santo Antônio forçando a vista, tentando enxergar melhor os companheiros.


-Aposto que sim. – Falou o Menino Jesus balançando as perninhas.


-E o Jorge que nem reza... – Disse o Cristo ajeitando a cruz no ombro.


-Moço mais egoísta... – Falou Santa Efigênia.


-Será que ele não tem olhos para ver o que está fazendo com a gente e com o nosso povo? – Perguntou a Santa Luzia depositando o prato na mesa.


-Se pelo menos fosse um museu... No museu as pessoas nos visitam... Já pertenci a um museu...- Falou o Cristo.


-Museu! Deus me livre! Sou uma santa fui feita para ser adorada e louvada. No museu somos objetos de arte. – Reclamou a Santa Rita.


-Mas é melhor que isto aqui. – Falou o Cristo.


-Moço egoísta... E pensar que estou aqui há quinze anos... – Lamentou novamente a Santa Efigênia.
No lado de fora Jorge ouvia a conversa e seu coração inicialmente assustado estava agora carregado de tristeza.


A principio pensou que fosse efeito da bebida. Andava bebendo quase todos os dias àquela hora da noite. Depois achou que não. Não era o efeito de bebida. Era uma conversa real. Muito real... E séria.


As lágrimas trasbordavam dos olhos banhando-lhe a face e um grande sentimento de culpa apertava-lhe o peito.
Via os altares vazios e o choro dos fiéis lamentando a perda dos santos de sua devoção. Ouvia o sermão duro do padre pedindo providências. Via os andores vazios... As beatas chorando... As procissões empobrecidas...


Via o quarto com os olhos dos santos: escuro silencioso...Sem preces, sem luz de velas...


As lagrimas agora molhavam sua camisa. Enxugou os olhos e sem querer bateu com a mão no trinco provocando um forte ruído metálico.


A conversa cessou.
Jorge não precisava ouvir mais nada.


Abriu a porta e encontrou o quarto como havia deixado: em silêncio. O Santo Antônio estava lá entre o São José e a falante Nossa Senhora do Rosário.


Parou ao lado da peça de Nossa Senhora do Rosário e acariciou-lhe o rosto. Depois pegou o prato da Santa Luzia que se encontrava na mesa e colocou sobre a mão estendida da santa.


-Meus santos e minhas santas, lamento muito o que tenho feito com os senhores e suas comunidades... Lamento do fundo do meu coração... A partir de amanhã providenciarei o retorno de todos às suas igrejas... – Disse ajoelhando no chão frio do quarto e iniciando uma silenciosa oração...
 
                                                                       FIM


                       
282 - APENAS UM TIJOLO
Autor: Carlos Henrique Rangel

No vazio do lote ocupado por matos,
lixos e ratos,
um tijolo perdido me lembra o passado...
O sobrado parece ressurgir do nada na tela de minha mente
e quase ouço as vozes da elite da terra em seus saraus restritos.

Nunca fui convidado porque não existia ainda para esse mundo de contrastes.
Meu pai e minha mãe também não...

Mas a casa “bacana”nos fascinava pela beleza...
Pelo que significava: beleza, riqueza, poder...

Depois o tempo, esse devastador de utopias, descorou sua tinta.
Envelheceu seus moradores.
Desfez a magia...
As massas em relevo de suas fachadas
caíram deixando à mostra os tijolos comuns a todas as casas.

O telhado que cobria a riqueza fez água...

Por fim, o pedaço da história se foi...
A cidade continuou o seu caminho com a memória empobrecida...

Apenas um tijolo perdido me lembra o passado entre matos lixos e ratos.

terça-feira, 16 de março de 2010

280 - PEDRA E RIMA
Autor: Carlos Henrique Rangel

Tinha uma
Rima
No meio
Da pedra.
Pobre rima...
Pobre pedra...
Tinha um
Sujeito
No meio
Da pedra.
No meio
Da rima.
Pobre sujeito.
Pobre pedra.
Pobre rima...

Tinha uma
Caneta...
Pobre caneta...
E um sujeito...
E uma pedra...
E uma rima...
Pobre Rima...

Tinha um
Mundo
E uma rima.
E um sujeito.
E uma pedra...
E a caneta.

Tinha uma
caneta
No mundo...
Pobre mundo...
Pobre mundo...


281 - COMPREENSÃO
Autor: Carlos Henrique Rangel

Te amo
Porque
Te conheço...
Te amarei
Mais
Quando
Te conhecer
Mais.

Aprecio
Porque compreendo.
Apreciarei
Mais
Quando compreender
Mais.

Amo
Porque conheço
Porque compreendo
Porque entendo
E aprecio.
E amarei mais
Quanto mais
Conhecer
Compreender
Entender
E apreciar.

Não quero
Ser igual
Mas a sua diferença
Me fascina.
Eu conheço
Eu compreendo
Eu aprecio
Eu entendo.

Eu te amo.

sábado, 13 de março de 2010

278 - OLHOS VAZIOS
Autor: Carlos Henrique Rangel

Vazios...
São vazios
Os seus olhos.
Nada dizem
De você.
No entanto,
É você,
Triste menina
Que guardo
Em minha retina.
Você quase não existe
Em sua singularidade.
Te vejo em tantas
Que me confundo.
Quantas são?
Mesmo não sendo,
Você é.
E eu...
Sou contradição poética
Te dizendo uma
Te dizendo muitas.
Vazios...
São vazios
Os seus olhos.
Como estão
Cheios de você...

279 - IGUAL
Autor: Carlos Henrique Rangel

Você que passou
Eu a vi
Décadas atrás
E, no entanto
Não era você.
Quantas são iguais
Mas não são?
Tudo me parece comum
Mas nada o é.
O único se repete
Tantas vezes...
Mas é,
Em essência
Tão diferente.
Os lugares comuns
Nada têm
De comuns.
São únicos...
Mas como
Parecem iguais...
Cada olhar
Que vejo igual,
Quão diferente
É...
Surpreenda-me mundo!
276 - UM
Autor: Carlos Henrique Rangel

Olhe nos meus olhos.
Veja o que sou.
Não se assuste
Se o que vê
É igual a você.
O outro sempre o é.
Não esmurre o espelho.
Vai doer... em você.
Eu sei,
Também em mim.
Eu sou você.
Melhor?
Pior?
São conceitos...
Sou Homem
Meu amigo
Igual a você.
No fundo
Somos os mesmos.
Parte de um corpo.
Olhe nos meus olhos
Somos lindos...
Somos Um.

277 - PEDRA
Autor: Carlos Henrique Rangel

Atire a primeira
Pedra
Se minha verdade
Te fere.
Não é a sua
E nem a sua é minha.
Não a quero sua.
Não a quero minha.
Atire a primeira
Pedra
Se o que digo
Não te diz
E só importa
O que você diz.
Quantas são
As verdades?
A todas respeito.
Não atiro pedras.
Elas são verdades
Duras
E ferem.
O que prevalece
Então?

sexta-feira, 12 de março de 2010

275 – MUNDO
Autor: Carlos Henrique Rangel

Cansei de ser
Um elo entre você
E o Mundo.
Eu não sou o Mundo.
Sou periferia.
Me ame se me quiser menor.
É o que sou...
Tão pequeno
Quanto seu Mundo.

Minha vida se limita
A você... Quase.
E é quase um nada...
Mas o meu Mundo não
É você.
Não ainda...
E não vai ser.

Me beija.
Não queira ser
Mais do que você.

quarta-feira, 10 de março de 2010

272 - LEÕES
Autor: Carlos Henrique Rangel

Olham
Os leões da praça.
Poses de artistas...
No banco,
Olho o mundo
Em movimento
E sou quase
Um ausente.

Que falta faria
Se desaparecesse?
Tudo continuaria...
E os leões...

A metrópole
Parece eterna
E respira
Se alimenta
Se droga...
Suas veias
Estão sujas
E suas carnes
Apresentam
Impurezas...

Ela se maltrata
Mas respira...

É eterna...

Olham
Os leões...
Inanimados,
Eles e eu.
A metrópole
Gira sobre si,
Animal
Sem mente
Que age
Por instinto.

Há de tudo
Nesse corpo:
Amor, ódio,
Tristezas, alegrias,
Fomes diversas,
Solidão...
Tudo é movimento.

Parados
Somente eu
E os leões.

273 - TRATADO
Autor: Carlos Henrique Rangel


Não rimo nada.
Acho que poesia
Não precisa
Ser rimada.
Apenas jogo letras
No papel.
Palavras soltas,
Palavras ao Leo.

Como disse:
Não rimo nada.
Para escrever
Basta uma musa
Uma amada...
Ou tudo
Ou nada.

Apenas avanço
Minha mão e deixo
O controle ao coração.
Ou não...

Poesia não precisa
Ser rimada.


274 - POÇAS
Autor: Carlos Henrique Rangel

Pisaram e a água espirra
Ganhando espaço.
Parada, nunca está...
Ou o vento que acaricia
Ou passos que oprimem.
Movimento é a sina
Da poça solitária.
Acidente da calçada,
Falha urbana...
Ignorada, ela é parte
da vida.
Transtorno de alguns.
Solitária, ela quer mais.
Quer correr o mundo.
Mas está limitada
À fenda, sua prisão.
O tempo lhe garante
A vida.
Seu tempo
É quase um não.

terça-feira, 9 de março de 2010

271 - ÁGUAS
Autor: Carlos Henrique Rangel

As águas de março
Nublaram meus olhos.
Já não penso o que sou.
Já não sei o que sou.

As margens que margeiam
Minhas lágrimas
São rugas que o tempo criou.
Foi só isso o que o tempo deixou.

As águas de março
Não fecharam meus verões...
Esses se foram há tempos
E eu caminho
De olhos vermelhos
Pelo que passou.

Lembrar pode ser
Uma doce tortura
E sou ótimo torturador.

As águas de março
Banham minha face
E um pouco de mim.

Não sei onde estou
E o que será ...
Sei, no entanto,
Que meu caminho
Não tem fim.
Março terá.

segunda-feira, 8 de março de 2010

270 - OBRA
Autor: Carlos Henrique Rangel

Misturo os grãos
Ao líquido em terra.
Uma rodela amarela.
Levo aos lábios
A primeira leva.
Desfaço a obra
E reconstruo uma nova.
Um pouco de verde
Em finas faixas
Eu mastigo com grãos brancos.
Há rodelas maiores
Em vermelhos variados
E de novo
O metal trabalhado
Recolhe a mistura colorida
E a abriga na caverna movediça.
Me alimento destas cores saborosas...
Brinco com as figuras...
Sou artista...
Brancos grãos,
Outros marrons,
Rodelas amarelas,
Círculos vermelhos,
Verdes fios...
Danço as formas
Na moldura redonda
E aos poucos
Reconstruo a escultura
Em borrões vazios.
Foram-se os grãos, rodelas,
E os fios.
Me sinto renovado.
Preenchido.
A obra que sou continua.
Na mesa,
O prato vazio.

quarta-feira, 3 de março de 2010

268 - FLOR DE VOCÊ
Autor: Carlos Henrique Rangel

É para mim
Esse aroma
Que me seduz?
Só eu posso sentí-lo?

Somos únicos...
Frascos perfumados
Dirigidos aos seres
Amados.

Esse odor raro
Só eu o tenho
E é para você.

E o seu?
Esse que sinto
Como único...
É meu?
É para mim?

Doce perfume
É você.
Flor de você.
Aroma
Que me cobre
O ser.

Estou impregnado...
Só sinto
Só respiro
Você...

Doce perfume
É você...
Flor de você
Flor de você.

(Para a flor do meu sertão: Rosângela)

269 - AROMAS COLORIDOS
Autor: Carlos Henrique Rangel

Se os odores fossem coloridos
Que cores teriam os seus aromas?
São vários os cheiros que sinto em você...
Várias cores...
Um pouco de amarelo...
Um azul suave...
Um rosa leve...
Atualmente é o vermelho quente
Que me fere o hábito.

Gosto do vermelho quente...

1248 - SIRENE