sábado, 5 de dezembro de 2009

BORBOLETA
Autor: Carlos Henrique Rangel

Como já disse, "borboleta"
quero te abraçar com cuidado
para não dobrar suas asas...
Com palavras...
Sinta-se abraçada pelas minha pobres palavras...
Sinta-se beijada...
Sinta-se mordida...(de leve...)


De que cor são suas asas...
Borboleta?
São azuis... Tranqüilidade?
São vermelhas... De revolta?
São brancas... De paz?
De que cor são suas asas... Borboleta?
As minhas... Tenho asas também...
Não te disse?
Mas ao contrário das suas,
são um pouco presas...
Só um pouco...
Mas também vôo...
Baixo para ninguém notar...
(quase ninguém)
As borboletas notam...

177 - Sobre Trilhos e Trens
Autor: Carlos Henrique Rangel

“O apito soou longo, profundo, transpassando minha alma. Nos vagões de madeira,vértebras do grande réptil, centenas entraram e se mostraram pelas janelas. O último Trem... O derradeiro... Depois dele, nada mais... O apito de novo... Desejei que fosse eterno. Pisquei os olhos úmidos fotografando a cena...”


“Uma telha caiu quando passei. No chão outras tantas se amontoavam a pedaços de janelas, vidros quebrados... As portas não existiam há dois anos e uma fogueira foi alimentada pelas tábuas que ajudei a fechar muitas vezes. Quem diria que apenas há alguns anos esperei Anita no banco perto da bilheteria cercado de gente-que-esperava e gente-que-ia e gente-que-vendia... Agora apenas a solidão de ruínas...”


“Quando pequeno, pulava dormentes... Andava sobre os trilhos quentes equilibrando, equilibrando... Caindo com os pés sobre as pedras azuis esbranquiçadas ... Ás vezes punha o ouvido sobre os trilhos: podia-se ouvir o Trem chegando... Outras vezes era o apito que nos assustava e saiamos dos trilhos para ver passar a Máquina, os vagões... Um, dois, três... Quarenta... Perdia a conta... Não ando mais nos trilhos. Mas até hoje conto os vagões: um, dois, três... Quarenta...”

“Na época da construção da Estrada de ferro havia mata e até onça. O Trem atropelou uma um dia... A malária matou muitos trabalhadores. A gripe outro tanto... Mas a Estrada saiu... Aquela Estação ali tem o nome de comida de onça: um engenheiro distraído...”

“A menina levava comida. Passava de saia rodada da escola local. Passava e agente olhava... Pulava os trilhos ao vento e agente olhava...
- Que comida cheirosa! – Gritava Manuel... O maquinista, pai da menina, não ouvia... Surdo que era..."


SERÁ O FIM?
176 - SOLIDÃO DE MENINO
Autor: Carlos Henrique Rangel

Meus dezesseis anos ficaram em outro século...
O eu que era já não sou mais.
Mudei tanto que não me reconheço no passado.
Mas sempre fica um pouco.
A solidão dos dezesseis ainda aparece de vez em quando.
E ela me sorri como velha amiga...
Mas não sou seu intimo... Não mais...
No século passado no entanto, eu era um solitário
Criador de estórias e fantasias.
Cada pequeno objeto era um personagem:
Meus “eus” melhores, mais fortes, poderosos.
O eu real era um tímido e carente menino
Apaixonado sempre... Sofrendo sempre...
Não sou mais assim... Acho...
Hoje me relaciono melhor com
Os outros e sou compreendido...
Em parte...
Tenho heróis escondidos na mente
E crio estórias …
Mas sou diferente daquele solitário menino.
Acho...
Apaixonei e apaixono ainda.
E sofro de amor e de outras coisas...
Mas se ficou alguma coisa...
Ficou pouco...


A solidão senta em minha mesa
Às vezes... Mas não lhe ofereço
Cerveja...
Não sou mais seu intimo...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

175 - CHUVA


Autor: Carlos Henrique Rangel

A chuva
Que abençoa

Meu rosto

É menina

Faceira...


Seu carinho

Úmido

Me desperta

Me alerta.

E ao Mundo...


O cheiro

De terra molhada

Perfuma o ar...

Eu me sinto

De alma lavada...

Literalmente.


Por detrás

Dos óculos

Embaçados

Vejo um Mundo

Melhor.


Correr é preciso

Para não se lambuzar

De carinho...

Mas eu não corro

E me delicio

Com seus beijos

Atrevidos...


Outros,


Mais espertos


São mais íntimos

E desfilam

Com tranquilidade

Entre os pingos...


Enxugo o rosto

Na blusa molhada

E caminho...

Devagar...

Devagar...


A chuva

Que abençoa

Meu rosto

É menina

Faceira...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

174 - CHAVE
Autor: Carlos Henrique Rangel

As chaves
Sempre me fascinaram.
Eh... Chaves...
Essas coisas de metal
Que abrem coisas
Ou fecham...


Talvez seja isso:
O mistério do que pode
estar do outro lado...
O lado que só a chave
sabe como olhar...
O poder de fechar
Para mais ninguém...
O poder de abrir
Para alguém...


A chave é a solução...
Se está fechado... Ela abre...
Se está aberto... Ela fecha...
E quem a detém
Tem... Tudo...
O poder de abrir e fechar
De deixar sair ou entrar.
Nossa!
É mágica essa coisa
Chamada Chave...
Mas...
Vou te dizer a verdade.
Por mais que me fascinem
os chaveiros cheios de chaves
Diversas...
Só uma chave me interessa:
A que abre seu coração...

173 - AO PÉ DA ÁRVORE
Autor: Carlos Henrique Rangel

Ao pé da árvore
Os olhos nos olhos
Diziam adeus.
Era o fim de tudo...
O que era bom
E não mais...
Ele vertia lágrimas
Ela, mais fria...
Morna...
Apenas brilho
Nos olhos.
Doía nos dois
O fim do amor.
Ao pé da árvore
“Do início”
Um novo nome:
“Do fim”.
Onde Começou
Terminava...
Ele chorava.
Ela cansada.
Ela queria...
O fim...
Ele não entendia.
Sofria...
Ele queria …
Um abraço...
Um beijo...
O recomeço.
Ela...
Queria voar...
Para longe
Da árvore...
Para mais feliz.
Ele era feliz...Era...
Não entendia, sofria...
Ela aceitou o abraço.
Ele apertou o seu corpo.
Ela deixou e gostou.
Ele molhou os seus ombros
E tocou o tronco...
Da árvore...
Ela tocou
O tronco da árvore...
E também chorou...
Duas lágrimas se uniram
Quando aconteceu o beijo.
Ela e ele.
Ele e ela.
Já não sabiam
Se era o fim
ou o começo...

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

CAMINHANDANTE
Autor: Carlos Henrique Rangel

Vou
Caminhandar
Por esse mundo
Sorrindo felicidade
Aos que estão...
No mundo.
Sou caminhandante
Valente
Enfrentando
Sombras
E duendes
E fadas (tímidas)
Sorridentes.
Vou caminhandar
Pelos caminhos
Conhecidos
Mastigando
Poeira
Dos já falecidos...
Tropeçando
Nas pedras
E “costelas”
Caindo em valas...
Abrindo porteiras...
Pisando
Coisas de vacas
E homens...
Sou caminhandante
Antigo
Com sonhos
Quase...
Caminhandando
Sem destino
Ou objetivo
Subjetivamente
Indo
“onde nenhum
Homem jamais
Esteve”.
Vou caminhandar
Pelas coisas
Dos homens...
As felicidades
Dos homens
Suas festas
Suas danças
Suas músicas
Seus lugares
De morar
Namorar
Divertir
Adorar
Passear...
Sou caminhandante
Teimoso
Com sede de sapiência...
De causos
E comidas
E bebidas...
Degustando
Líquidos ardentes
E fêmeas também...
Vou caminhandar
Pelos templos
Dos homens...
Beijar fitas
Senhoras e Senhores
Pombas, velas...
E andores.
Pisar gramas
Sagradas
E provar
Bentas águas.
Sou caminhandante
Perdido
Amante do
Desconhecido
Desbravador
Do já dito
Carregador
De carrapichos
Mofos
E fantasmas...
Minha carga
Admirada
Se espalha
Pelos caminhos
Caminhandados...
Frutificando
Em terras
Férteis
Desertos e matas...
Vou caminhandar
Por esse mundo
Sempre.
Sou caminhandante
Perdido
Teimoso
Valente
E antigo
Que tem
Como sina
Caminhandar.

  CURIOSIDADES: Um discípulo perguntou a seu mestre: "Mestre como é a vida após a morte?" O mestre calmamente respondeu: "Nã...